quinta-feira, 5 de agosto de 2010

TÃO BOM AQUI

Me escondo no porão

para melhor aproveitar o dia

e seu plantel de cigarras.

Entrei aqui pra rezar,

agradecer a Deus este conforto gigante.

Meu corpo velho descansa regalado,

tenho sono e posso dormir,

tendo comido e bebido sem pagar.

O dia lá fora é quente,

a água na bilha é fresca,

acredito que sugestiono elétrons.

Eu só quero saber do microcosmo,

o de tanta realidade que nem há.

Na partícula visível de poeira

em onda invisível dança a luz.

Ao cheiro de café minhas narinas vibram,

alguém vai me chamar.

Responderei amorosa,

refeita de sono bom.

Fora que alguém me ama,

eu nada sei de mim.

Adélia Prado.

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